O que ninguém me contou sobre o cancro: o mais difícil vem depois
- Diana Cruz

- 17 de set.
- 3 min de leitura
É hoje.
Chegou o dia de dizer aquilo que tantas vezes pensei, mas nunca disse.Aquilo de que ninguém fala — nem eu.
Tenho uma vaga memória de momentos em que abri e fechei a boca, pronta a falar. Mas não aconteceu. A minha vontade transformou-se apenas em ar. Ficou nos subterrâneos daquilo que penso e sinto, guardada nas masmorras das minhas relações — mesmo das mais próximas.
O pior do cancro vem depois. E, para muitos de nós, mesmo que não seja “o pior”, é o mais silencioso.É o mais difícil de explicar. De concretizar.Porque o cancro não acaba quando acaba. Depois dele, fica um “nada” que é, na verdade, um “tudo”.
Quando os tratamentos terminam, tanta coisa começa.
Ai, o cancro.
O cancro é tudo. É ruído. É cor. É movimento. É uma máquina infernal que nos suga para o seu centro. Ficamos nós — por vezes nós e os outros.Os que estão próximos. Os que nos seguram a mão nos dias em que precisamos de ajuda para tudo, quase tudo. Exames, consultas, adaptações, remarcações, tratamentos e mais tratamentos. Tudo é para ontem.
A terapêutica, que supostamente nos devolve à vida, também nos leva com ela. Leva a nossa luz, a nossa energia, a nossa vivacidade. Chamam-lhe “luta pela sobrevivência”, mas com o tempo percebemos que não é guerra.É dança.Uma dança desconcertante, entre nós e o que nos invade.Entre o tratamento e o que resta de nós.
Há ruído. Tão alto.Os médicos, as enfermeiras (minha querida Dra. Inês), os amigos, a família.Os sintomas.O cancro a gritar “aqui estou”.
E depois… o silêncio.
Onde estou agora? O que sobra? E agora?
Tudo volta ao “normal”. Menos nós.
As consultas espaçam-se, os exames também. Ouço: “acabou, está tudo bem”, “já passou”, “agora é seguir em frente”.Mas ninguém me preparou para isto.Para o vazio que fica. Para a ausência de quem eu era.
“Normal”?Não há regresso ao que era. O corpo mudou. O pensamento mudou. A alma, então… essa virou outra coisa.
E como explicar, a quem nos vê todos os dias, que o cansaço ficou?
Que não é cansaço comum — é um peso imenso que cobre tudo.Cansaço físico, mental, emocional. Um véu que não se levanta.
O corpo já não responde como antes.
A energia não volta como antes.A cabeça não acompanha o que era.
As emoções estão cruas.
Ninguém vê, mas continua tudo cá.
E o mais difícil é essa exigência de mim para comigo:“Tu fazias isto… porque agora não consegues?”
Essa cobrança dói.
Porque não sou mais aquela.
Sou outra.
Sou esta.
Sou uma nova versão de mim que ainda estou a descobrir.
E dói quando os outros não sabem disso.
Quando não cedem o lugar, quando não respeitam o silêncio, quando acham que exagero.
Dizem: “Isso já passou.”Mas ainda nem o sabor metálico saiu da boca.Nem a angústia constante de que algo pode voltar.
Ninguém me avisou. Mas agora sei.
Agora, há outro trabalho a fazer.
O mais árduo: aceitar as minhas limitações.
Ter auto-compaixão.Resistir à tentação de me forçar a ser o que já não sou.
Confiar no meu corpo. Mesmo quando os exames dizem “tudo certo”, mas ele me sussurra que algo não está bem. Confiar.
Aprendi que o corpo sabe.
E o meu corpo, mesmo cansado, continua leal.
Está aqui para mim.
E isso, ninguém me disse. Mas agora, eu sei.

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