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Infidelidade no relacionamento: porque acontece, como dói e o que fazer a seguir

  • Foto do escritor: Diana Cruz
    Diana Cruz
  • 5 de ago.
  • 3 min de leitura

Com tudo o que se tem passado — e com a falta de limites e empatia que, por vezes, assistimos no mundo digital —, decidi trazer-vos algumas ideias sobre infidelidade.


“Infidelidade” é um tema sedutor porque ativa os nossos medos, curiosidades e a noção de risco. É um tema tratado de forma intensa, por vezes até apaixonada, o que nos leva muitas vezes a abordagens simplistas e superficiais. Soma-se a isso o facto de muitos de nós já termos sido vítimas de traição (ou termos traído), o que dificulta ainda mais uma análise neutra.


Mas a infidelidade é tudo menos simples.


Uma questão moral? Não apenas.

A infidelidade é um fenómeno complexo, multifatorial, multifacetado. Impacta profundamente a vida emocional dos envolvidos e não pode ser vista "a seco" como uma simples falha moral ou individual — ainda que esses fatores possam, nalguns casos, estar presentes.


O meu objetivo aqui não é desculpabilizar nem diabolizar, mas sim oferecer diferentes camadas de análise — com base científica, psicológica e sistémica — a partir da minha experiência clínica, tanto em sessões individuais como em terapia de casal.




Afinal, o que é infidelidade?


A própria definição de infidelidade já levanta dificuldades.

É preciso haver contacto sexual?

Basta um envolvimento emocional?

E quando o contacto é apenas digital, como em mensagens ou interações online?


A resposta é: depende.


Tudo depende do que, para cada pessoa, representa uma quebra de confiança — e do “contrato relacional” estabelecido, seja ele explícito ou implícito. Mesmo comportamentos considerados “pequenos” por alguns podem ser altamente dolorosos para outros.





A infidelidade como colapso



A traição quebra, de forma inquestionável, a confiança do casal.

É uma violação do contrato relacional.

Por isso, digo muitas vezes: a infidelidade é incontornável.


Ela representa um colapso. A relação, tal como era conhecida, desmorona. O que antes era segurança torna-se incerteza. Tudo passa a ser questionado — até memórias e experiências anteriormente positivas.


O impacto é profundo.

Muda a forma como os dois se relacionam e revela camadas adormecidas, recalcadas ou evitadas. O confronto com a realidade torna-se inevitável.




Como a psicologia entende a infidelidade



A psicologia interpreta este fenómeno a partir de diferentes abordagens, todas complementares:


  • Indivíduos com baixa autoestima ou necessidade constante de validação externa tendem a procurar fora o que não encontram dentro de si.

  • Pessoas com estilos de vinculação inseguros sentem-se mais vulneráveis ao medo da perda e podem espalhar os seus vínculos afetivos por mais do que um parceiro.

  • A abordagem sistémica e familiar vê a infidelidade como sintoma de disfunções do casal: falhas na comunicação, limites, compromisso ou diferenciação emocional.


Existem também fases do ciclo de vida familiar mais propensas à infidelidade: chegada dos filhos, perda de entes queridos, mudanças profissionais, crise dos 40, entre outras.


É um comportamento justificável?

Não cabe aqui o julgamento moral.


O que importa saber é que, à luz da psicologia sistémica, a infidelidade é uma estratégia desadaptativa: ela não resolve os problemas e ainda amplia o desequilíbrio da relação. Traz sofrimento a todos os envolvidos.


As dores dos envolvidos:


  • A pessoa traída sente dor profunda: desilusão, vergonha, culpa, humilhação.

  • A pessoa que trai pode sentir-se invisível, desvalorizada ou incapaz de expressar o seu mal-estar.

  • O amante vive, muitas vezes, na ambivalência e idealização — também marcado por carências afetivas.

  • Os filhos notam tudo, mesmo quando não sabem o que se passa. E, nalguns casos, são os primeiros a descobrir a traição — o que os deixa num lugar de silêncio pesado, culpa e confusão emocional.



E depois da infidelidade?


Não há caminho fácil.

É preciso parar, escutar e enfrentar.


A traição obriga o casal a fazer uma de duas escolhas:


  1. Reconstruir a relação sobre novas bases, com acompanhamento terapêutico e disposição para fazer diferente;

  2. Separar-se com consciência e respeito, sobretudo quando há filhos.


Ambos os caminhos exigem:


✔ validação emocional para quem foi traído;

✔ responsabilização clara por parte de quem traiu;

✔ escuta ativa, diálogo e reconstrução de limites e acordos;

✔ apoio profissional, especialmente em contextos familiares.



Precisamos reconhecer, com humildade, que a infidelidade é um fenómeno humano e complexo, que merece ser compreendido — e não apenas reagido com dor ou raiva.



Se estás a viver um processo de infidelidade, seja como quem traiu, quem foi traído ou quem se viu envolvido, talvez este seja o momento de procurar apoio terapêutico.


Há caminhos possíveis.


E, com ajuda certa, também pode haver reencontro com a tua clareza e força interior.

 
 
 

© 2023 por Daniela Ventura

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