Fiz ghosting ao meu terapeuta… e agora?
- Diana Cruz

- há 5 dias
- 4 min de leitura
Hoje decidi falar sobre algo que acontece mais vezes do que se pensa em terapia.
Inspirei-me numa conversa que tive com uma paciente, depois de cerca de dois meses sem sessões nem contacto para remarcar.Pode acontecer. E, de repente, voltar à terapia começa a parecer incomodamente difícil.
Começam a surgir pensamentos como:
“Ainda faz sentido manter?” “Vai achar que desapareci.” “Vai estar zangada comigo.” “Tenho vergonha de não ter dito nada.”
No caso desta paciente, ela partilhou que esteve bastante ansiosa, deixou-se engolir pelas tarefas pendentes e, ao fim de um mês sem sessão, começou a sentir culpa e vergonha por ter interrompido o processo – “ter feito ghosting” – sem se dar conta e sem avisar. No final do e-mail, perguntava se eu tinha disponibilidade para retomar.
Ela não é caso único. Muitos pacientes, depois de uma pausa, chegam com as mesmas dúvidas e, por vezes, até ponderam mudar de terapeuta só para não terem de enfrentar este momento de regresso.
Quero sublinhar isto: pode acontecer. E, quando acontece, o que está em jogo não é verdadeiramente ghosting como o vemos nas relações informais. É, na maioria das vezes, algo que faz parte do próprio processo terapêutico.
O que está a acontecer quando “desapareces” da terapia?
De fora, pode parecer simples: “deixei de ir”. Por dentro, costumam estar muitas coisas em movimento.
Em alguns casos:
O processo está a ficar difícil, a tocar em temas que ainda não te sentes pronto/a para aprofundar. Como esta paciente me disse na sessão seguinte, havia assuntos que a deixavam em grande desconforto e ela recuou sem se aperceber totalmente disso.
Noutros casos:
A vida atropela o espaço da terapia. As urgências do dia a dia, as rotinas, o cansaço… tudo se sobrepõe, e o trabalho psicológico ainda não está nas tuas prioridades. Isto não significa desinteresse ou “falha de carácter”; significa apenas que, naquele momento, outras coisas ocuparam o primeiro plano.
E há ainda situações em que:
As expectativas em relação à terapia ou ao terapeuta não estão a ser correspondidas. Podem surgir dúvidas sobre o método, o ritmo, o tipo de intervenção, ou até sobre se aquela é a pessoa certa para te acompanhar. Em vez de falar sobre estas dúvidas, o impulso pode ser afastar-te em silêncio.
Seja qual for o motivo inicial, há um fenómeno comum: o passar do tempo faz o silêncio crescer. Quanto mais adias o contacto, mais difícil parece voltar. É como se o intervalo entre sessões ganhasse peso, e com ele a sensação de que “estragaste” a relação terapêutica.
O terapeuta está zangado? Desiludido? A pensar mal de ti?
Não.E isto é importante ser dito de forma muito clara.
O psicoterapeuta não está zangado, nem desiludido, nem “a pensar mal” de ti por teres interrompido, faltado ou demorado a retomar. A terapia existe, precisamente, para ser um lugar onde estas dificuldades também podem entrar.
Quando há uma interrupção, um afastamento ou um silêncio prolongado, isso é informação clínica valiosa. Diz algo sobre:
como lidas com conflito, vergonha e medo de desiludir;
como te afastas quando algo fica difícil;
como te relacionas com a ideia de depender de alguém ou de pedir ajuda.
Por isso, em vez de ser um “falhanço”, pode ser um momento muito importante do processo, se for trazido para dentro da relação terapêutica.
Na minha experiência, os regressos após uma pausa são sessões especialmente ricas. Permitem falar abertamente sobre:
os receios que te fizeram afastar;
as fantasias sobre o que o terapeuta estaria a pensar;
a tua tendência para te calares, desapareces, ou “aguentares tudo sozinho/a”.
Quase sempre, isto ilumina não só a relação com o terapeuta, mas também outros padrões de relação na tua vida.
Não é ghosting. É material de trabalho terapêutico.
Quando pensas “fiz ghosting ao meu terapeuta”, o impulso é muitas vezes de te defender: justificar, explicar tudo, pedir desculpa em excesso ou simplesmente nunca mais voltar.
O que eu gostava de te propor é outro olhar:
Não é preciso justificares tudo ao pormenor.
O mais importante é perceberes que este impasse diz algo sobre ti, sobre a forma como lidas com a dificuldade, a vulnerabilidade, a vergonha, o conflito.
E isso é material precioso para ser trabalhado em terapia – não motivo para te afastares dela.
A relação terapêutica, quando é bem cuidada, não é um lugar de julgamento, nem de exigências em que corres o risco de “desiludir” alguém. É um espaço que:
reconhece o teu ritmo;
pode abrandar quando for preciso;
acolhe a ambivalência, a dúvida, a vontade de fugir;
ajuda a dar nome ao que está por trás do silêncio.
Se pensas “fiz ghosting ao meu terapeuta, e agora?”
Agora, talvez possas considerar isto:não estragaste a relação terapêutica.
Esse intervalo, esse silêncio, esse desconforto podem ser o ponto de partida para uma conversa muito importante sobre a forma como te relacionas – contigo, com o outro, com a própria ideia de pedir ajuda.
Quando estiveres pronto/a, podes simplesmente escrever ou ligar e dizer algo como:
“Afastei-me, não sei bem explicar porquê, mas gostaria de retomar e, se fizer sentido, falar também sobre isto.”
Da parte de cá, aquilo que encontras não é um tribunal, mas alguém disposto a te ajudar a compreender o que aconteceu, sem te reduzir a esse momento.
A relação terapêutica não foi feita para ser perfeita. Foi feita para ser um espaço onde levas também as tuas imperfeições, fugas, recaídas e regressos e onde tudo isso pode ser olhado com respeito e cuidado.



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