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Quando o caos parece amor: porque repetes relações intensas (e como começar a sair desse padrão)

  • Foto do escritor: Diana Cruz
    Diana Cruz
  • 10 de dez. de 2025
  • 6 min de leitura

Há pessoas que, quando olham para a própria história amorosa, sentem que estão sempre a ver o mesmo filme com atores diferentes. Relações intensas, discussões frequentes, ciúmes, reconciliações dramáticas, mensagens longas às três da manhã, promessas de “desta vez vai ser diferente”. E, quando finalmente aparece alguém calmo, disponível, respeitador… parece que “falta qualquer coisa”.


Na cabeça, o desejo é claro: “Eu só quero paz, alguém estável, uma relação segura.”

Na prática, uma parte de ti continua a correr atrás de dinâmicas turbulentas, de pessoas imprevisíveis, de histórias que te deixam em sobressalto.


A pergunta que muitas pessoas me trazem em consulta é esta:

“Porque é que eu digo que quero tranquilidade, mas acabo sempre no caos?”

Para entender isto, precisamos de dar um passo atrás e olhar para a forma como aprendemos, lá atrás, o que era o amor.



Quando a tua história te ensinou que amor vem misturado com instabilidade


Ninguém nasce a preferir o caos. Mas muitos de nós crescemos nele.


Se a tua infância foi marcada por ambientes instáveis, tens possivelmente um corpo treinado para estar em alerta. Não é preciso ter havido “um grande trauma” para isto acontecer. Às vezes, foi uma sucessão de episódios aparentemente “normais”:

  • discussões frequentes entre adultos;

  • gritos, portas a bater, silêncios que duravam dias;

  • momentos de muito afeto seguidos de frieza, crítica ou rejeição;

  • regras que mudavam sem explicação, castigos desproporcionais, ameaças de abandono.


Uma criança não tem linguagem para isto. Mas tem um sistema nervoso extremamente atento. Vai-se adaptando: tenta prever humores, mede as palavras, adivinha o clima da casa pelas expressões e pelos passos no corredor. E, ao mesmo tempo, vai recebendo amor e cuidado das mesmas pessoas que geram medo, tensão e vergonha.


O resultado é confuso, mas muito frequente: o teu corpo aprende que amor vem misturado com ansiedade, alerta, medo de perder, necessidade de “merecer” atenção. A adrenalina passa a fazer parte do pacote.


Quando chegas à idade adulta, sem te aperceberes, carregas essa aprendizagem contigo. Relações calmas podem parecer “sem chama”. Pessoas estáveis podem soar a “aborrecidas”. Situações previsíveis podem ativar a sensação de que “isto não é bem amor, falta qualquer coisa”. Essa “qualquer coisa”, muitas vezes, é o próprio caos que o teu corpo reconhece como familiar.



A guerra silenciosa entre o que queres e o que o teu corpo conhece


Em consulta, ouço muitas vezes coisas como:


“A minha cabeça sabe que aquela pessoa me faz mal, mas não consigo largar.”
“Com pessoas estáveis sinto-me estranhamente desligada/o, como se não houvesse química.”
“Quando a relação acalma, eu começo a arranjar problemas.”

À superfície, parece um paradoxo: tu queres paz, mas foges dela. Dizes que não aguentas mais montanhas-russas emocionais, mas quando finalmente estás num terreno plano, tens vontade de o abandonar.


Não é incoerência. É conflito interno.


Uma parte tua – a parte que pensa, reflete, analisa – sabe que uma relação saudável precisa de respeito, estabilidade, cuidado mútuo. Outra parte – a que aprendeu a sobreviver em ambientes instáveis – fica em modo alerta quando sente calma, como se a qualquer momento algo pudesse rebentar. O corpo, habituado à adrenalina, estranha o descanso.


De repente, relações seguras podem ser interpretadas como “mornas”. Relações caóticas ativam-te, mexem contigo, ocupam muito espaço na cabeça. E, sem perceber bem como, vais sendo puxado/a de volta para aquilo que te fere.



A história da Inês (e de tantas outras pessoas)


Imagina a Inês. Cresceu numa casa onde nunca sabia muito bem o que a esperava. Havia dias de carinho e proximidade, jantares em família, piadas, partilhas. E havia dias de gritos, acusações, portas que batiam, ameaças de ir embora. A Inês cresceu a aprender a medir o ambiente: olhava para a cara dos pais e percebia se aquela noite ia ser tranquila ou tensa.

O amor estava ali. Mas vinha muitas vezes acompanhado de medo, vergonha, insegurança. O coração dela aprendeu a bater mais depressa não só nas boas surpresas, mas também nas más.


Mais tarde, já adulta, a Inês entra em várias relações onde sente “uma química fora do normal” logo no início. São relações cheias de puxões e afastamentos, mensagens contraditórias, promessas intensas, rotinas que nunca assentam. A parte dela que deseja ser amada fica muito viva. A parte dela que conhece o caos como “normal” também.


Quando, finalmente, conhece alguém gentil, coerente, presente, a Inês até sente alívio… mas passado algum tempo, começa a achar que não está verdadeiramente apaixonada. Diz a si mesma que “não sente aquela coisa”, que talvez esteja a acomodar-se, que falta fogo. Começa a sabotar, a testar, a criar discussões, a distanciar-se. O sistema nervoso dela, habituado à montanha-russa, não sabe bem o que fazer num terreno estável.


Na terapia, a Inês vai percebendo que não se trata de gostar de sofrer, nem de “ser viciada em drama”. Trata-se de ter aprendido, muito cedo, que amor e instabilidade andam de mãos dadas. E que agora, adulta, ela está a tentar desaprender esse guião para construir outro.



Como começar a sair deste padrão sem te culpares ainda mais



É tentador resumir tudo a uma frase dura: “eu é que escolho mal”. Mas isso só acrescenta culpa a uma história que já traz dor suficiente.


O primeiro passo não é culpar-te; é perceber que este padrão foi aprendido. E o que é aprendido pode ser, com tempo e apoio, reaprendido.


Começa por observar. Em vez de te atacares por voltares ao caos, tenta notar quando é que isso acontece. Com que tipo de pessoas te sentes mais “vivo/a”? Que tipo de relações te parecem sempre demasiado pouco? Quando estás com alguém estável, o que é que começas a pensar e a sentir? Fica curioso/a com os teus movimentos internos.


Olhar para a infância também ajuda. Talvez nunca tenhas chamado “instabilidade” ao que viveste. Talvez tenhas crescido a ouvir “todas as famílias são assim”. Mas quando começas a rever as cenas – as discussões, as ameaças, as idas e vindas – podes notar que o teu corpo passou anos em alerta. E isso não é um detalhe.


A partir daqui, entra o treino da paz. E isto parece poético, mas na prática é bastante desafiante. Permitir-te estar em relações, contextos e vínculos onde há respeito, previsibilidade e cuidado pode ser desconfortável no início. Podes sentir tédio, medo, vontade de fugir. Podes ter impulsos de criar drama só para “sentir qualquer coisa”.


É aqui que o trabalho interno ganha força: aprender a reconhecer que a calma que te parece estranha hoje pode ser a segurança de que sempre precisaste. Não se trata de aceitar relações apagadas ou mornas. Trata-se de aprender a distinguir entre emoção e destruição, entre intensidade e abuso, entre presença e controlo.


Em muitos casos, a terapia torna-se uma espécie de laboratório seguro. Um lugar onde podes experimentar ser visto/a sem gritos, sem castigos, sem chantagens; onde podes testar o que é estar numa relação (terapêutica) estável, em que as tuas emoções são recebidas sem excesso nem abandono. Isso vai ensinando ao teu corpo que talvez exista outra forma de estar com alguém.



Não és o problema. Carregas um guião que está a pedir reescrita.



Se te revês neste texto – se já te sentiste atraído/a vezes sem conta por relações que te deixam em ruínas, se já te apanhaste a sabotar histórias calmas, se a paz te pareceu aborrecida – quero que fiques com isto muito claro:

Tu não és “defeituoso/a”.

Tu não és “viciado/a em drama” por escolha consciente.

Tu aprendeste, a partir do que viveste, que amor vinha misturado com instabilidade. E estás a fazer o melhor que sabes com o guião que tens.


A boa notícia é que guiões podem ser reescritos. Não de um dia para o outro, não sem dor, não sem resistência. Mas podem.


Começa por reconhecer o que se repete. Dá um nome a esse padrão. Repara nos momentos em que o caos te chama e pergunta-te: “isto faz-me bem ou só me é familiar?”. E, se sentires que faz sentido, leva esta conversa para a terapia. Não para te culpares, mas para começares, com alguém ao teu lado, a desenhar um caminho onde amor e paz deixam de ser conceitos incompatíveis.


O caos pode ter sido o teu primeiro idioma emocional. Mas não precisa de ser o único que falas pelo resto da vida.


 
 
 

© 2023 por Daniela Ventura

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