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Psicoterapia depois dos 60: porque é que ainda custa tanto pedir ajuda psicológica?

Foto do escritor: Diana Cruz
Diana Cruz
há 16 horas
8 min de leitura

Há uma geração inteira que aprendeu a aguentar. Trabalhou, criou filhos, cuidou dos pais, atravessou perdas, manteve casamentos, resolveu problemas e continuou em frente, muitas vezes sem parar para pensar no impacto emocional de tudo aquilo que ia acontecendo.


Quando chegam os 60, os 65 ou os 70 anos, muitas destas pessoas estão numa fase em que finalmente existe mais tempo para si. Os filhos já cresceram, a pressão profissional diminuiu ou terminou, há por vezes maior estabilidade financeira e mais disponibilidade para cuidar da saúde e da qualidade de vida. Seria expectável que a saúde psicológica entrasse naturalmente nessa equação. Para muitas pessoas, porém, continua a não entrar.

Há assuntos com décadas que nunca foram verdadeiramente pensados ou falados. Lutos, conflitos familiares, relações difíceis, ressentimentos, experiências da infância, culpa, solidão, escolhas de vida que ainda pesam. Algumas dessas questões estiveram simplesmente guardadas enquanto havia demasiadas coisas concretas para resolver.


Outras foram sendo aceites com frases como “a vida é assim”, “há coisas que temos de aguentar” ou “agora já não vale a pena mexer nisso”.


Mas quanto tempo é, afinal, “agora”?


Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística, a esperança de vida à nascença em Portugal foi estimada em 81,49 anos no triénio 2022-2024. Aos 65 anos, uma pessoa pode esperar viver, em média, mais 20,02 anos. Em 2024, cerca de 24% da população portuguesa tinha 65 ou mais anos.



Estamos, portanto, a falar de uma etapa longa da vida. E isso obriga também a repensar a forma como olhamos para o envelhecimento e, em particular, para a psicoterapia depois dos 60.




Envelhecer já não significa apenas acumular perdas



Longe vão os tempos em que envelhecer significava tão somente “acumular perdas”. Diversos estudos ao longo das últimas décadas têm-se dedicado à Psicologia Gerontológica e demonstrado aquilo que contribui para um envelhecimento positivo e bem-sucedido.


Se em qualquer etapa do ciclo de vida temos como objetivo fazer a melhor adaptação possível para o nosso bem-estar, porque seria diferente na última etapa? Sobretudo numa etapa tão longa?


Para envelhecermos com qualidade precisamos de ter bem-estar físico, o melhor estado de saúde possível, manter as nossas funções cognitivas e físicas e estarmos bem inseridos e ativos na comunidade envolvente. Precisamos de uma rede de família e amigos, ocupação e propósitos de vida que alimentem a energia vital de cada um.


A saúde emocional faz parte deste processo, mesmo quando durante muitos anos não foi entendida dessa forma.


Há pessoas que chegam a esta fase da vida com uma enorme capacidade de adaptação. Outras encontram mais dificuldades. Podem desistir de interesses, projetos ou mudanças porque sentem que já “esgotaram” o seu tempo de vida ou, no extremo oposto, podem ter muita dificuldade em aceitar qualquer alteração associada ao envelhecimento.


Esta é uma fase em que pode ser necessário aprender a lidar com algumas limitações, redefinir e redirigir energias, interesses e propósitos de vida e explorar vias que anteriormente não faziam sentido ou não eram interessantes. Ter limitações em algumas áreas não significa perder propósito em todos os âmbitos da vida.


É preciso continuar a ter planos de vida, ser estratégico e saber otimizar aquilo que se tem de melhor. Isto nem sempre é simples ou intuitivo.




Quando finalmente há tempo, aparece aquilo que foi ficando para trás



Durante décadas, muitas pessoas viveram num ritmo que deixava pouco espaço para olhar para dentro. Havia trabalho, filhos para criar, responsabilidades familiares, problemas económicos, pais a precisar de apoio e uma sucessão de tarefas muito concretas.

Quando esse ritmo abranda, pode acontecer uma coisa desconfortável: o que ficou emocionalmente por resolver torna-se mais visível.


Um luto pode ter acontecido há vinte anos e continuar a ter impacto. Uma relação difícil com um pai ou uma mãe pode continuar presente muito depois da morte dessa pessoa. Um casamento de quarenta anos pode acumular proximidade e cumplicidade, mas também ressentimentos, silêncios e assuntos que nunca foram discutidos. Há quem chegue à reforma e descubra que a profissão ocupava um espaço tão grande na identidade que deixa de saber muito bem quem é quando já não trabalha.


Também existem conflitos com filhos adultos, relações entre irmãos que se deterioraram, culpa por decisões tomadas muitos anos antes, experiências traumáticas, solidão ou a sensação difícil de que uma parte importante da vida foi passada a cuidar de toda a gente menos de si próprio.


O passar dos anos não resolve necessariamente estas questões. Podemos aprender a viver com alguma coisa durante muito tempo sem que isso signifique que deixou de nos afetar.

A diferença é que, nesta fase, pode finalmente existir disponibilidade para olhar para essas questões com outro tempo e outra maturidade.






“Antigamente ninguém precisava destas coisas”



Na minha experiência, para muitas pessoas desta geração a possibilidade de procurar ajuda psicológica continua a ser complexa.


Para muitos pais de pessoas que têm agora entre 40 e 55 anos, sensivelmente, as necessidades emocionais são ainda associadas a fraqueza. A possibilidade de discutir com um terapeuta o seu plano de vida, as suas relações ou aquilo que sentem pode parecer estranha, desconfortável ou injustificável.


Há muito estigma. “Antigamente ninguém discutia estas coisas e muito menos fora de casa.”

Este estigma tem raízes históricas. Muitos adultos mais velhos cresceram numa época em que a psicoterapia era vista como um último recurso para situações psiquiátricas graves e em que a expressão emocional podia ser entendida como fraqueza. Para algumas pessoas, pedir ajuda pode equivaler a admitir uma falha pessoal.


Há ainda outra ideia muito presente: “Eu sempre resolvi os meus problemas sozinho.”

É uma frase compreensível numa geração que foi educada para suportar, trabalhar, cumprir e seguir em frente. Mas aquilo que nos permitiu sobreviver em determinados momentos da vida nem sempre é aquilo que nos permite viver melhor noutras fases.


A Organização Mundial da Saúde chama precisamente a atenção para o facto de os problemas de saúde mental nas pessoas mais velhas continuarem muitas vezes sub-reconhecidos e subtratados, sendo o estigma uma das razões que pode dificultar a procura de ajuda. A OMS identifica ainda a solidão, o isolamento social, o luto, a perda de rendimento ou de propósito após a reforma e os efeitos acumulados de experiências anteriores como fatores relevantes para a saúde mental nesta etapa.





“Nesta idade já não vou mudar”



Esta é provavelmente uma das crenças mais difíceis de desmontar.


Há quem reconheça que sofre, identifique problemas nas relações ou saiba que existem assuntos antigos que continuam a pesar, mas considere que já não faz sentido procurar ajuda porque “aos 60 ou 70 anos uma pessoa já não muda”.


A psicoterapia não exige que alguém se transforme numa pessoa diferente daquela que foi durante toda a vida. Pode servir para compreender melhor alguns padrões, perceber porque certas relações continuam a provocar tanto sofrimento, elaborar perdas, estabelecer limites, encontrar outras formas de comunicar, reorganizar prioridades ou simplesmente conseguir falar sobre determinados assuntos num espaço onde não é necessário proteger os filhos, o companheiro ou o resto da família.


Pode também ajudar a responder a questões muito próprias desta fase do ciclo de vida. O que acontece à identidade quando termina a vida profissional? Como se reorganiza um casal quando passa a estar muito mais tempo junto? Como se lida com um corpo que muda? O que acontece quando os filhos deixam de precisar de nós da mesma forma? Como se encontra propósito quando desaparecem algumas das funções que durante décadas organizaram os dias?


Continuamos a desenvolver-nos psicologicamente ao longo da vida. A idade não elimina a necessidade de adaptação.


Na teoria do desenvolvimento psicossocial de Erikson, a última fase da vida corresponde ao confronto entre integridade e desespero. A pessoa olha para o percurso que fez, para aquilo que construiu, perdeu, escolheu ou gostaria de ter feito de outra maneira. A possibilidade de integrar essa história, incluindo as partes difíceis, tem um peso importante na forma como se vive esta etapa.




Muitas vezes, são os filhos que percebem primeiro



É frequente serem os filhos adultos a começar esta conversa. Notam que os pais estão mais isolados, preocupados, tristes ou presos aos mesmos conflitos. Percebem que existem assuntos que regressam constantemente e sentem que uma ajuda profissional poderia fazer diferença.


Quem sabe os pais não se sentiriam melhor se fizessem psicoterapia para lidarem com algumas mudanças, estabelecerem novos propósitos e projetos ou simplesmente terem outra pessoa com quem falar sobre aquilo que sentem?


Os filhos vivem aqui uma contradição difícil: veem os pais a sofrer, sabem que a Psicologia pode ajudar e deparam-se com a recusa.


É importante ter algum cuidado com a forma como esta possibilidade é apresentada. Para alguém que cresceu a associar psicoterapia a doença mental grave, ouvir “precisas de ir ao psicólogo” pode facilmente soar a crítica ou acusação.


Pode ser mais útil normalizar gradualmente a saúde psicológica, falar abertamente sobre emoções, mostrar que outras pessoas da mesma geração procuram acompanhamento e enquadrar a psicoterapia como mais uma dimensão do cuidado com a saúde.


Ao mesmo tempo, os pais continuam a ser adultos, com as suas ideias e vontade. Se não existir qualquer impedimento neurológico ou psiquiátrico que comprometa a sua capacidade de decisão, são eles os decisores das próprias vidas.


Os filhos podem conversar abertamente sobre aquilo que observam, explicar o que sentem e apresentar possibilidades de ajuda. Não podem decidir pelos pais.




Um plano para envelhecer também pode incluir a vida emocional



Fala-se muito de seguros de saúde, poupança, residências, alimentação, exercício físico e prevenção da doença quando pensamos no envelhecimento. Faz sentido. Mas um plano de vida eficaz precisa também de sentido e propósito e deve ser revisto ao longo do tempo.


A Organização das Nações Unidas declarou 2021-2030 como a Década do Envelhecimento Saudável, liderada pela Organização Mundial da Saúde. Entre os seus eixos estão precisamente a mudança da forma como pensamos e agimos em relação à idade, a criação de comunidades que favoreçam as capacidades das pessoas mais velhas e a prestação de cuidados centrados na pessoa.




Nesta fase, um plano de vida pode incluir propósitos flexíveis, com atividades que continuem a dar sentido aos dias e que possam ser adaptadas caso a mobilidade ou a cognição se alterem. Pode incluir novas aprendizagens, hobbies, participação na comunidade, voluntariado, viagens ou projetos que tinham sido adiados.


A conexão também é fundamental. Redes familiares, amigos, relações intergeracionais e atividades sociais ajudam a combater o isolamento. Centros de dia, associações, grupos, hidroginástica ou outras atividades não são meros passatempos quando criam pertença, rotina e relação com outras pessoas.


A autonomia pode igualmente ser adaptada ao longo do tempo. A independência total pode deixar de ser realista em determinadas circunstâncias, mas isso não significa retirar à pessoa a possibilidade de decidir. É possível renegociar a autonomia em diferentes áreas e em diferentes momentos.


Finalmente, há um trabalho importante de narrativa pessoal. Escrever memórias, contar histórias, revisitar experiências e transmiti-las às gerações seguintes pode fazer parte de uma revisão da identidade e de uma passagem de testemunho dentro da família.

A psicoterapia pode ter lugar em todas estas dimensões.




Ainda vale a pena falar sobre o que dói



A saúde mental na população mais velha merece ser levada a sério. A OMS estima que cerca de 15% das pessoas com 70 ou mais anos vivem com uma perturbação mental, sendo a ansiedade e a depressão das mais frequentes. A própria organização alerta para o facto de estas condições serem frequentemente pouco reconhecidas e pouco tratadas.

Isto torna particularmente importante combater a ideia de que tristeza persistente, ansiedade, isolamento ou perda total de interesse pela vida são simplesmente consequências normais da idade.


Também não é razoável esperar que alguém chegue aos 60 ou 70 anos com toda a sua história emocional resolvida. Uma vida longa acumula relações, escolhas, perdas, alegrias, erros, mudanças e circunstâncias que nem sempre tivemos condições para processar quando aconteceram.


Chegar a esta idade com questões por resolver é profundamente humano. Procurar compreendê-las também pode ser.


Uma pessoa que chega aos 65 anos pode ter, em média, cerca de vinte anos de vida pela frente. São muitos anos para viver melhor dentro da própria história, cuidar das relações que ainda podem ser cuidadas, compreender aquilo que continua a doer e construir novos interesses e propósitos.


Há coisas do passado que já não podem ser alteradas. A forma como vivemos com elas, aquilo que fazemos no presente e a maneira como queremos atravessar os anos seguintes continuam, em muitos casos, abertas à mudança.

© 2023 por Daniela Ventura

 
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