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Quando o controlo parece amor: o que a manosfera nos está a ensinar sobre relações

  • Foto do escritor: Diana Cruz
    Diana Cruz
  • há 2 dias
  • 5 min de leitura

Há um número que não consigo deixar de pensar desde que o li: 68,2% dos jovens portugueses não reconhecem determinados comportamentos como violentos. Falamos sobretudo do controlo: verificar o telemóvel do parceiro, monitorizar a localização, querer saber com quem está, a que horas chegou, o que vestiu ou com quem falou. O controlo é, aliás, considerado normal por 53,4% e pode até ser confundido com uma forma de amor.

Quando vi estes números, a minha reação não foi propriamente de surpresa. Temos visto estas mudanças a acontecer. Mas não deixou de me preocupar e de ativar o meu radar clínico para sinais de alarme.

Na prática clínica, vejo muitas pessoas perceberem que estiveram numa relação abusiva apenas muito tempo depois de terem saído dela. Durante anos, não conseguiram nomear o que estavam a viver. Foram-se adaptando às escaladas de agressividade, foram justificando comportamentos, foram cedendo espaço, até que aquilo que antes pareceria impensável passou a parecer “normal”.

Estes jovens não estão necessariamente a dizer que a violência é aceitável. Estão a dizer algo talvez ainda mais preocupante: que aquilo que experienciam não é violência. Estão a não ver. A não identificar. A não conseguir reconhecer o controlo como uma forma de abuso.


Quando o cuidado começa a vigiar


Quando o controlo aparece embrulhado em frases como “é porque me preocupo contigo”, quando o isolamento progressivo vem disfarçado de “prefiro estar só contigo”, quando a vigilância é apresentada como cuidado, o cérebro recebe dois sinais ao mesmo tempo: amor e controlo.


E, especialmente quando ainda se está a aprender o que é uma relação, a intensidade emocional pode ser facilmente confundida com profundidade do sentimento.

Mas há uma diferença importante entre cuidado e vigilância.

O cuidado respeita. O controlo vigia.

O cuidado pergunta e escuta. O controlo interroga e exige.

O cuidado aproxima sem prender. O controlo reduz a liberdade da outra pessoa para aliviar a insegurança de quem controla.


O abuso raramente começa com violência física. Começa muitas vezes em pequenas doses: comentários, pedidos, reações, ciúmes, exigências, desconfortos que parecem isolados e justificáveis. Cada passo seguinte parece apenas um pequeno desvio do anterior. Até que a pessoa olha para trás e já não consegue identificar exatamente quando é que deixou de se sentir livre.


É precisamente por isso que a violência física tende a ser mais facilmente reconhecida. É visível, inequívoca, socialmente condenada. A violência psicológica e o controlo são tão perigosos porque, muitas vezes, não parecem o que são.




A manosfera e a educação emocional dos jovens


Recentemente, fui convidada a falar sobre este tema no podcast Somos Todos Malucos, com o Raminhos, onde explorámos precisamente estas questões. E há uma peça que não pode faltar nesta conversa: o ecossistema online que tem estado a ensinar relações a muitos jovens antes mesmo de eles terem tido uma.





A manosfera não é um grupo único. É uma rede difusa de comunidades online — fóruns, canais de YouTube, vídeos de TikTok, grupos de Reddit e outros espaços digitais — que partilham uma visão do mundo onde os homens são apresentados como as verdadeiras vítimas, o feminismo como inimigo e a masculinidade tradicional como solução.


Dentro deste universo há vários ramos, desde os chamados Pick-Up Artists, com técnicas para “conquistar” mulheres, até aos Incels, homens que culpam as mulheres pela própria solidão e que representam uma das franjas mais radicalizadas deste ecossistema.


O que torna a manosfera tão eficaz não é apenas o conteúdo mais extremo. É o caminho até lá.


A sedução começa muitas vezes pelo que parece razoável: conselhos de fitness, gestão financeira, desenvolvimento pessoal, disciplina, sucesso. Coisas aparentemente úteis para jovens que procuram orientação, pertença e validação.


Muitas pessoas pensam que os rapazes e homens aderem a estes conteúdos porque são simplesmente misóginos. A realidade é mais complexa. Muitos aderem porque estão sós, magoados, confusos, sem modelos saudáveis de pertença, e alguém lhes oferece finalmente uma explicação para o sofrimento que sentem. O problema é a explicação que recebem.



O sofrimento masculino também precisa de ser olhado



A manosfera não inventa o sofrimento masculino. Mas explora-o.


Oferece uma narrativa onde a culpa da dor masculina é das mulheres, do feminismo ou da perda de uma suposta ordem natural. E apresenta como solução a dominação, o controlo, a recusa da vulnerabilidade e o afastamento de tudo o que possa ser vivido como fragilidade.


Este é o paradoxo mais cruel: a manosfera oferece precisamente aquilo de que muitos rapazes mais precisam — comunidade, pertença, propósito — mas fá-lo a um preço alto. Isola-os ainda mais. Ensina-lhes que a vulnerabilidade é fraqueza, que pedir ajuda é sinal de inferioridade e que a proximidade emocional deve ser substituída por poder.


O sofrimento masculino é real e merece ser levado a sério. Mas não pode ser tratado através de narrativas que desumanizam as mulheres, fragilizam ainda mais os homens e tornam as relações lugares de disputa, controlo e medo.


Precisamos de modelos de masculinidade que não destruam os homens por dentro. Precisamos de espaços onde os rapazes possam falar de solidão, rejeição, vergonha, desejo, medo e insegurança sem serem empurrados para o ódio ou para a dominação.

A manosfera é prejudicial para as mulheres. Mas também é profundamente prejudicial para os homens.



O que podemos fazer?


Se tens filhos, sobrinhos, alunos ou jovens por perto, há algumas coisas importantes a considerar.


Fala sobre relações antes de ser necessário. A literacia emocional e relacional não é automática. Aprende-se. Saber o que é um limite saudável, distinguir cuidado de controlo, compreender que vulnerabilidade não é fraqueza e reconhecer sinais de manipulação são aprendizagens fundamentais, que devem acontecer antes das primeiras experiências íntimas.


Presta atenção ao vocabulário e aos conteúdos consumidos. Linguagem extremada, machista, misógina, humilhante ou excessivamente rígida sobre homens, mulheres e relações não é apenas uma questão de “gíria” ou de humor. Pode ser sinal de aproximação a comunidades com crenças muito específicas sobre poder, género, controlo e intimidade.

Não confrontes de imediato. Pergunta. Quando alguém está a aproximar-se de ideias radicais, a confrontação direta pode gerar defesa e fechar o diálogo. Perguntas como “como chegaste a essa conclusão?”, “o que achas que essa pessoa está realmente a dizer?” ou “isso faz-te sentir melhor ou mais zangado?” podem manter uma porta aberta para reflexão.


O alívio é um sinal. Digo muitas vezes isto em contexto clínico: se uma pessoa sente alívio quando o parceiro não está presente, esse alívio diz mais do que muitas listas de comportamentos abusivos. O corpo sabe. Muitas vezes percebe antes de conseguirmos organizar tudo em palavras.



Reconhecer é o primeiro passo


É possível aprender a reconhecer a manosfera, os seus iscos e as fragilidades que ela explora. É possível ensinar jovens a distinguir cuidado de controlo, amor de vigilância, intensidade de segurança, pertença de dependência.


Mas essa consciência não se constrói sozinha. Constrói-se em casa, na escola, na terapia, nas conversas, nos conteúdos que consumimos e na forma como falamos sobre relações.

Porque uma relação não deve ser um lugar onde alguém perde liberdade para que outra pessoa se sinta segura.


E o amor, quando é cuidado, não precisa de controlar para existir.

© 2023 por Daniela Ventura

 
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